
Os diários da Capivara
14.9.08
Enquanto isso, pata ante pata...

Estou tendo problemas com ela.
Ficou muito traumatizada, acha que a culpa da minha detenção possivelmente foi sua, por estar traficando animais silvestres, e passou dois dias sem sair da mala.
Ontem foi para a rua mas ficou se escondendo pelos cantos.
Vai ser difícil resolver essa parada... * suspiro *
A Capi veio com muita curiosidade para San Francisco: tudo o que sempre ouviu sobre a cidade falou ao seu coração. Comprou uma roupa nova, e decorou "If you go to San Francisco (be sure to wear some flowers in your head)".
Também fez um trabalho mental muito duro para se convencer a não comer as tais flores.
Agora está convencida de que as flores que quer cantar são outras:
Uma capivara traumatizada é bicho complicado de lidar. Conversamos muito essa manhã; expliquei que, embora anormales, os americanos (ou pelo menos, montes deles) são boa gente; e que, embora SF não seja mais a cidade hippie dos velhos tempos, o espírito da cidade, no geral, continua sendo de paz e amor, nem que seja pelo folclore.
Quem diz que ela quer saber disso? Continua cabreira e se escondendo.
Só ficou mais à vontade quando chegamos a Chinatown, porque é fã do filme e porque é onde a língua que menos se ouve é inglês.
Não tive coragem de contar para ela a minha opinião sincera sobre a China, nem de falar dos seus hábitos alimentares.
Ficou empolgada com as lojinhas cheias de bobagens e com a quantidade de gente de outras partes do mundo que encontrou.
Mas continua rebelde e
(Public Enemy, Fight the Power)
Depois de duas noites no Four Seasons, a Capi começou a ter coragem de pôr o focinho pra fora; ela sabe o que é bom e aprecia uma cama confortável e bem feita. Não queria desgrudar de mim e ficava com medo das pessoas na rua, mas pelo menos aceitou dar umas voltas, o que foi um grande progresso.
Como toda turista de primeira viagem, achou Chinatown uma experiência fascinante. Adorou a disposição das lojas, atulhadas de cacarecos do chão ao teto, onde podia se esconder sem dificuldade cada vez que ouvia alguém falando inglês; e ficou besta com a quantidade de besteiras que o ser humano é capaz de inventar, fabricar, transportar para o outro lado do mundo e, sobretudo, convencer alguém a comprar.

Por ela, teria passado o dia enfurnada entre aparelhos de chá de gosto duvidoso e bastões de incenso (devorou vários!) mas, como depois de um tempo, meu joelho começou a reclamar, concordou em voltar para o hotel.
Estávamos descendo a Grant, e passando em frente a um espécie de beco, quando ela parou, atenta a um barulhinho vindo de trás de umas caixas de papelão. Sentei num dos degraus para descansar enquanto ela ia investigar. Subi fotos pro blog, respondi emails e, quando me dei conta, um bom tempo tinha se passado.
Nada da Capi.
Fui atrás, e lá estava ela, atrás das caixas, conversando com um bicho que não consegui identificar.
-- Ele não sabe como se chama nem tem idéia do que era, -- explicou. – Também ficou preso no Orange Level quando veio para cá, mas deixaram o coitado sem comida e sem bebida, de modo que está morto.
Ainda mais traumatizado do que a Capi, o bichinho vivia escondido nas caixas, de onde só saía à noite.
(Paul Robeson, Nobody Knows the Trouble I've Seen)
-- Será que podemos levá-lo conosco? – perguntou a Capi. – Por favor? Ele está muito infeliz.
Ele tinha uma caveirinha de gente boa, e contou que passou por maus bocados. Não duvidei; se a Capi, que estava comigo, ainda não tinha se refeito do susto do Orange Level, imaginem um pobre animal desacompanhado -- e agora, ainda por cima, morto.
Prometi ajudá-lo. Ainda tinha espaço na mala.
(Leonard Cohen, The Future)
(Guerra Civil Espanhola | Ay, Carmela)
A Capi me pediu que voltasse para o degrau onde eu estava antes, enquanto ela se entendia com o Fu Critter. Bichos traumatizados são ecossistemas emocionais muito delicados, e não é raro que evitem justamente as pessoas que podem ajudá-los.
Não sei o que conversaram, mas o fato é que ele voltou para o hotel conosco. Mas especificamente, com a Capi -- em relação a mim, estava cabreiro e desconfiado.
(Bob Dylan | Blowing in the Wind)
Na porta do quarto, ainda ficou na dúvida se entrava ou não, mas acho que a Capi convenceu-o dizendo que eu trabalhava o dia inteiro e que ele quase não precisaria me ver.
Nem era mentira: saí para jantar, na volta mergulhei no computador para escrever a coluna da Revista Digital e passei a madrugada digitando.
(Sting | Fragile)
Quando fui dormir, os dois estavam desmaiados lado a lado. A própria Capi, que estava se fazendo de durona, ainda estava abalada pela experiência traumática do Orange Level; era claro que aquela era uma amizade importante para os dois.
(John Denver | For Baby (For Bobbie)
De manhã, quando acordei, achei que os dois já estariam longe, mas qual o quê. Continuavam na segurança da cama quentinha do hotel, e ele agarrava-se às patas dela como um náufrago a uma tábua de salvação.
(Continua)
Como eu ia contando...
Resumo da história até o momento: presa comigo no Orange Level do Aeroporto de Atlanta, quando estive nos Estados Unidos em agosto passado, a Capi ficou muito traumatizada. Achei que fosse se trancar na mala e nem pôr o focinho pra fora antes de voltarmos ao Brasil, mas ela é curiosa e, pata ante pata, sempre se escondendo pelos cantinhos, resolveu ver qual era a de São Francisco.
Gostou muito de Chinatown, sobretudo porque quase não ouviu ninguém falando inglês por lá. Não tive coragem de dizer-lhe o que penso sobre os chineses e a forma como se relacionam com o mundo à sua volta, sobretudo com os animais; falar de certas coisas em determinados momentos não é de bom tom.
Quando estávamos voltando para o hotel, a Capi ouviu um barulho vindo de trás de umas caixas numa pilha de lixo. Foi ver o que era, e lá encontrou um animalzinho falecido e não identificado, vítima dos agentes da HSA, que o prenderam no Orange Level sem água ou comida.
Compreensivelmente, estava ainda mais traumatizado do que ela.

Ele não soube dizer nada a respeito de si mesmo. Muito cabreiro, voltou conosco para o hotel. Foi preciso muito papo da Capi para deixá-lo um tiquinho mais à vontade.
No dia seguinte, saí para trabalhar. Os dois estavam dormindo feito pedras, agarrados um ao outro, dois pobres bichinhos assustados, impotentes diante das maldades do mundo em geral, e de um estado policial.
Mais tarde, a Capi foi passear e, logo ali ao lado, deu com uma enorme construção cheia de luzes e cores.
-- Oh! – exclamou. – Um Templo de Consumo!
(Tive sorte: o cartão de crédito estava comigo, em Palo Alto.)
Logo foi abordada por um dos Sumos Sacerdotes:
-- Bom dia! Meu nome é Pink Floyd. Em que posso ajudá-la?
-- Prazer, Pink Floyd. Capivara. Estou só olhando.
-- Fique à vontade. Qualquer coisa que precisar, é só chamar.
-- Vem cá. De quadrúpede para quadrúpede: você também foi preso?
-- Eu? Não, eu nunca fiz nada de errado.
-- Eu também não, mas mesmo assim, quando cheguei aqui, passei um tempão sem saber o que ia acontecer comigo.
-- Você acha que não fez nada errado, mas certamente fez. Estrangeiros são sempre perigosos, uma ameaça ao American Way of Life. As pessoas que tomam conta das fronteiras são pagas para manter os estrangeiros no seu devido lugar.
-- Os oficiais nazistas também eram pagos para manter os judeus no seu devido lugar.
-- Nazistas? Gozado, passei a vida toda aqui na Califórnia e nunca ouvi falar dessa seita.
-- Alemanha, anos 30...
-- Ah. Mas eu sou cidadão americano. Como é que você quer que eu conheça uma seita asiática tão antiga?
-- A Alemanha fica na Europa.
-- É tudo a mesma coisa. Todos têm inveja dos Estados Unidos.
-- Você acha mesmo?
-- Tenho certeza! Não há país tão rico e poderoso como o nosso. Todo mundo quer vir morar aqui.
-- Eu não quero.
-- Tá vendo só? Depois diz que não fez nada errado. Você é comunista?
-- Não.
-- Estranho, muito estranho... Por que não quer morar aqui?
-- Questão de gosto.
-- Eu não disse?! Os caras da imigração não fazem nada à toa! Os Estados Unidos são a pátria da liberdade, você nunca ouviu isso?
-- Ouvir eu até ouvi. Mas... ah, deixa pra lá. Obrigada pelo papo. Vou indo.
-- Não vai levar nada?
-- Tou sem grana.
-- Mas nós aceitamos todos os cartões de crédito.
-- Também estou sem cartão.
-- Pois faça um cartão da loja! Você tem crédito pré-aprovado, e 10% de desconto nas compras feitas hoje.
-- Hey, dude, você não está vendo? Eu sou uma capivara! Capivaras não trabalham, não têm crédito, não fazem compras.
-- Ah, mas nos Estados Unidos todo mundo tem crédito!
O encontro deixou a Capi muito perturbada. Ela é ruim de contas, coitada, mas na sua cabeça aquilo não fazia o menor sentido. Como é que todo mundo pode ter crédito?!
(A trilha sonora vem mais tarde, porque o dia está lindo e eu vou aproveitar para sacar unas fotos...)
18.11.07
Berlim
8.10.2007
Visto da janela do hotel, em Berlim, o primeiro dia da nossa viagem estava lindo, e parecia muito agradável. Chegando à Alexanderplatz, contudo, tivemos um duro choque de realidade: o sol, ardiloso, escondia um frio miserável.
A praça continua em obras, mas numa das esquinas ficou pronto o Alexa, um lindo shopping do tamanho certo, com lojas bacanas como a Zara e a H&M.
Desisti de alugar bicicleta porque a idéia de ampliar o frio com vento na cara não me apeteceu em nada; em vez disso, segui pela Unter den Linden, cumprimentando os prédios que já me são familiares e parando para tirar fotos aqui e ali.
A Capi tomou outro rumo, impaciente com todas essas paradas.
No fim da tarde, enquanto eu esperava o metrô, um desconhecido me entregou um envelope e sumiu na multidão. Dentro dele, uma foto meio escura, obviamente revelada às pressas.

Reconheci a Capi, reconheci o Café Balzac (onde gosto de parar para ler os jornais), mas não consegui descobrir quem estava com ela.
9.10.2007

Hoje foi um dia de trabalho duro para mim.
Sabendo disso, a Capi nem saiu do quarto. Ficou recarregando as baterias.
No fim da tarde voltei para deixar o notebook e pegar mais um casaco antes de seguir para uma entrevista da Alcatel no Ritz.

-- Ritz?! -- assanhou-se a Capi. -- Você disse Ritz?!
De lá, fomos jantar no restaurante que fica no alto do Reichstag. A arquitetura é interessante: o projeto manteve a parte que não veio abaixo durante a guerra, e criou uma estrutura de vidro muito leve e atraente por cima.


Um princípio parecido foi adotado na Potsdamer Platz, onde o que sobrou de um palacete foi incorporado à nova e radical paisagem, como uma espécie de sarcófago transparente.

10.10.2007



11.10.2007

A Capi quase me levou à loucura, experimentando roupas em todas as lojas hype de Berlim.
Quando finalmente encontrou algo do seu gosto, mandou que eu segurasse a conta enquanto ela tirava a escada, e partiu para a noite, lépida e fagueira.
12.10.2007

Acordei cedo para tomar café. Quando voltei, os dois estavam conversando em frente à janela. Entrei pé ante pé, fiz a foto e saí para as últimas compras na Alemanha.
Acho que nem chegaram a notar minha presença.
Paris
13.10.2007
No Café de Flore, enquanto se distraiam vendo as pessoas que passavam, os dois se lembraram do Café Balzac, em Berlim, e de como se conheceram.
Fizeram planos impossíveis e sonharam com o futuro, apesar de saber que dois aviões os separariam em breve.
Ao pôr-do-sol, viveram momentos românticos únicos e banais, como tantos e tantos antes deles.
Abraçaram-se antes de ir para o aeroporto, comovidos, mas sabendo que sempre terão Paris.
14.10.2007
O Teddybär marcou passagem para o mesmo horário da Capi.
Negócios urgentes o esperavam em casa, e ele pegou o avião para Berlim sem saber que ela ainda passaria outras 24 horas no Velho Continente: tão perto, e tão longe.
Em Berlim, o Teddybär tentou se curar da ressaca amorosa à maneira local, com uma ressaca daquelas. Os resultados da terapia são desconhecidos.
Não tivemos mais notícias dele.
Quanto à Capi, trancou-se no armário assim que chegamos ao Rio. Não quer falar com ninguém e é impossível prever quando a veremos novamente.

17.11.07
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